Um livro, seja produto de tradução ou não, é o resultado de
um trabalho em equipe. Os
envolvidos diretamente na produção de um livro são os profissionais
responsáveis pela supervisão editorial, tradutores, equipe de editoração,
revisores (técnicos ou não) e autores ligados à empresa editorial (à editora).
Independentemente do processo editorial pelo qual o livro passa (compra
de direitos autorais, contratação de tradutor, etc.), todos os livros são submetidos a etapas de
leitura realizadas por um revisor.
O revisor encontrará uma grande variedade de textos, de gêneros e estilos
bastante diferentes uns dos outros. Basicamente, o revisor trabalhará com dois
tipos de textos: os traduzidos e os não-traduzidos, sejam de caráter técnico ou
de área especializada ou livros de ficção ou de natureza literária.
A revisão é realizada preferencialmente em etapas, e cada uma delas é feita por
um revisor diferente, com o intuito de expor o texto ao máximo de leitores
possível antes da publicação. No caso de obras traduzidas, a primeira etapa de
revisão é feita cotejando com o texto de partida, o que se denomina preparação
de originais. Caso o texto não seja traduzido, a revisão é feita em contato direto
como autor, que receberá o texto com as sugestões e dúvidas do revisor.
Essa etapa também é uma preparação de originais. Após a preparação, as dúvidas são repassadas ou para o autor ou para o tradutor
e as emendas são feitas no texto. Feito isso, o livro é paginado e passa para
uma próxima leitura. No caso de textos técnicos, o revisor técnico entra nesta
etapa e deve trabalhar em parceria com o tradutor e com o revisor de português
a fim de estabelecer a pertinência dos termos especializados em uso no texto.Em
alguns casos há ainda uma terceira etapa de revisão, em que ajustes finais são
feitos, sobretudo em se tratando de obras extensas e/ou de múltipla autoria.
A etapa de preparação dos originais é aquela em que há uma interferência maior
no texto. O revisor precisa estar atento a possíveis saltos de tradução
(trechos presentes no texto de partida mas ausentes na tradução), a padrões de
coesão e coerência, pontuação e adaptação gráfica aos padrões brasileiros. Deve
também atentar para a numeração de eventuais notas de rodapé e normatização conforme os critérios da editora (ou do contratante). A etapa de leitura após a
preparação dos originais tem o objetivo principal de sanar problemas
ortográficos, conferir sumários, cabeçalhos, página de rosto, ficha
catalográfica e qualquer fuga do padrão gráfico, como linhas-viúvas,
hifenização, tamanho do tipo, etc.
O REVISOR E O TEXTO
A atividade de revisão de textos surge com as gramáticas, “fortemente
vinculadas à prescrição de bem falar” (BRITTO, ''A sombra do caos'', 1997) e prescritivas
em sua origem.
Nascendo a partir da norma, e só existindo por causa dela, a revisão de textos
restringiu-se por muito tempo à correção ortográfica e gramatical e foi
incorporada como parte intrínseca do processo editorial. É nesse espaço social
que o profissional que realiza o trabalho de revisão encontra boa parte do
mercado de trabalho. A produção de textos acadêmicos e científicos também compõe uma porcentagem expressiva do trabalho disponível ao revisor de textos,
mas, ao contrário do que ocorre na relação estabelecida com o mercado editorial
formal, a revisão de textos de áreas especializadas tende a eximir-se de
qualquer responsabilidade de ordem trabalhista, o que reflete a falta de
respaldo social da atividade.
Muito se tem debatido sobre teorias literárias, teorias da tradução e teorias
lingüísticas com ênfase na autoria e no texto final, tomando o texto já pronto
(ou seja, publicado) como ponto de partida ou, no caso dos estudos de tradução,
dois textos cujas características são comparadas à luz de teorias da tradução.
O que poucas vezes se leva em conta é a existência de políticas editorias que interferem no produto final. Um exemplo disso é a mudança de
títulos, como a publicação em português de Blind Man with a Pistol, de Chester
Himes, pela editora L&PM (2007), sob o título O Harlem é Escuro (tradução
de Celina Falk Cavalcante). Tive a oportunidade de realizar a revisão da
tradução, e o título sugerido pela tradutora era outro. Por decisão da editora
o título foi alterado.
Semterconhecimento desse fato, não é improvável que um pesquisador de
literatura comparada venha a pesquisar a tradução de Blind Man with a Pistol e
tecer teorias sobre a escolha do título, quando, na verdade, o título não foi
escolha nem do tradutor, nem do revisor, mas da editora. Em outras palavras, o
perigo de isolar a obra e considerá-la fruto somente do trabalho do autor e do
eventual tradutor é desperdiçar esforços teóricos ao se desconsiderar os outros agentes
envolvidos no processo de publicação.
Digressões à parte, o revisor não só é um leitor, ele é um leitor com
experiência de leitura e representa todos os potenciais leitores do texto que
revisa. De certa forma, o revisor traz o leitor para o processo de produção do
texto, pois, estabelecida a comunidade interpretativa (conforme denominação de
Fish, 1976), o revisor passa a representá-la e a sugerir alterações no texto
que sejam mais adequadas aos leitores a quem o texto se dirige.
Sob essa perspectiva, reduzir a atividade de revisão à simples correção gramatical
é ignorar o papel do revisor como um especialista textual e um especialista em leitura. No que diz
respeito ao texto, são aspectos lingüísticos que entram em jogo: padrões
lexicais e terminológicos, padrões de coesão (específicos de gêneros textuais,
por exemplo) e elementos sintáticos; no que diz respeito à leitura, são acessados aspectos extratextuais, de crítica literária,
de teoria literária e de experiência de leitura (KOCH, ''Ler e compreender'',
2007). Estes são os pilares da boa revisão. Dominar regras gramaticais sem
dúvida é um pré-requisito para a prática da revisão, mas não é a única nem a
mais importante.
Para finalizar, é fundamental ressaltar a importância da formação profissional
e da urgência de reconhecimento da profissão pelo Ministério do Trabalho. Para
que haja reconhecimento social, é fundamental a intervenção e posicionamento
dos cursos de Letras como formadores dos profissionais aptos a exercer a
revisão de textos. Hoje, não há regulamentação que exija diploma em qualquer
curso, o que equivale a dizer que qualquer um pode “virar” revisor.
Fonte: http://m.parc.terra.com.br/efamilynet/dev/generic/interna.php?id_cat=57&article_id=2060