Por Evandro Milet - 06/02/2012
De que altura ficaria uma folha de papel dobrada 50 vezes? Você não vai
acreditar, mas teria uma altura aproximada de 100 milhões de quilômetros (a
distância da Terra ao Sol é de 150 milhões de quilômetros)! Todos os dias somos
confrontados com a nossa deficiência de lidar com a matemática. Apostamos na
mega sena com uma chance em 50 milhões e com isso pagamos um imposto por não
saber fazer contas. Aliás, pelas estatísticas registradas na cidade de
Campinas, a probabilidade de ser atropelado no caminho para a casa lotérica é
"consideravelmente maior" do que a de acertar as seis dezenas do
sorteio. Pagamos juros exorbitantes em prestações também por não conseguir
fazer contas. Também não acreditamos que uma amostra de 3000 pesquisas consiga
cravar o resultado de uma eleição nacional (fora as manipulações, é claro)
porque nunca conhecemos alguém que tenha sido entrevistado.
Certa vez, em uma palestra, um dirigente de um órgão nacional de arrecadação
se vangloriava do próprio trabalho, mostrando sequencialmente que a arrecadação,
estado por estado, havia crescido acima da média daquele ano. No décimo estado
seguido citado, perguntei, de brincadeira, se a meta seria que todos os estados
tivessem crescimento de arrecadação acima da média, com o que ele imediatamente
concordou entusiasmado, para espanto dos poucos que perceberam a
impossibilidade matemática.
Tudo bem que a matemática provoca situações estranhas como o caso onde eu
como dois frangos e você não come nenhum embora, na média, cada um coma um
frango. Em outra esquisitice, se a bolsa de valores cair 50%, para voltar onde
estava ela terá que subir 100%. Ou a piada do sujeito que sempre levava uma
bomba quando entrava em um avião porque lhe disseram que a probabilidade de
haver duas bombas no mesmo avião seria muito pequena. A pouca familiaridade com
a matemática cria enormes oportunidades para a manipulação de dados e por isso,
um cínico já disse que estatística é a arte de torturar os números até que eles
confessem.
Fora brincadeiras, a rejeição que a matemática provoca em grande número de
estudantes pode ser profundamente perigosa para o país. Provavelmente o apagão
de engenheiros que teremos nos próximos anos tem a ver com essa rejeição e o
consequente péssimo desempenho dos jovens nas provas de matemática das avaliações
domésticas e internacionais, como o recente resultado do Pisa (Programa
Internacional de Avaliação de Alunos) onde o Brasil, em 2009, mesmo tendo
avançado em relação a 2006, ficou em 53º lugar em matemática entre 65 países.
O Pisa busca medir a realização de operações básicas, raciocínio e as
descobertas matemáticas mediante o uso de conteúdos matemáticos como
estimativa, mudança e crescimento, espaço e forma, raciocínio quantitativo,
incerteza, dependências e relações. Todas estas noções são fundamentais para
qualquer desenvolvimento profissional e mesmo para cada cidadão viver o
dia-a-dia.
E onde está o problema, então? Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do
Trabalho e Sociedade (Iets), vai ao ponto: "Se a língua portuguesa é um
componente de cultura geral, que as crianças podem obter junto à família, a
matemática requer um estudo sistemático, que só as escolas podem dar".
Dessa forma, explica, "os baixos resultados de matemática mostrariam a
dificuldade que as escolas encontram em transmitir um conhecimento mais formal
e sistematizado, que seria uma de suas funções centrais".
É fundamental um esforço sem precedentes para a capacitação de professores
com o preparo necessário para transformar o ensino de matemática em algo
interessante e prazeroso para os estudantes.
Evandro Milet (
evandro.milet@gmail.com) é bacharel em
matemática pela UnB, Mestre em Informática pela PUC/RJ e consultor de empresas.
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