sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O que faz o profissional de revisor de textos?


Um livro, seja produto de tradução ou não, é o resultado de um trabalho em equipe. Os envolvidos diretamente na produção de um livro são os profissionais responsáveis pela supervisão editorial, tradutores, equipe de editoração, revisores (técnicos ou não) e autores ligados à empresa editorial (à editora). Independentemente do processo editorial pelo qual o livro passa (compra de direitos autorais, contratação de tradutor, etc.), todos os livros são submetidos a etapas de leitura realizadas por um revisor. 

O revisor encontrará uma grande variedade de textos, de gêneros e estilos bastante diferentes uns dos outros. Basicamente, o revisor trabalhará com dois tipos de textos: os traduzidos e os não-traduzidos, sejam de caráter técnico ou de área especializada ou livros de ficção ou de natureza literária. 

A revisão é realizada preferencialmente em etapas, e cada uma delas é feita por um revisor diferente, com o intuito de expor o texto ao máximo de leitores possível antes da publicação. No caso de obras traduzidas, a primeira etapa de revisão é feita cotejando com o texto de partida, o que se denomina preparação de originais. Caso o texto não seja traduzido, a revisão é feita em contato direto como autor, que receberá o texto com as sugestões e dúvidas do revisor. 

Essa etapa também é uma preparação de originais. Após a preparação, as dúvidas são repassadas ou para o autor ou para o tradutor e as emendas são feitas no texto. Feito isso, o livro é paginado e passa para uma próxima leitura. No caso de textos técnicos, o revisor técnico entra nesta etapa e deve trabalhar em parceria com o tradutor e com o revisor de português a fim de estabelecer a pertinência dos termos especializados em uso no texto.Em alguns casos há ainda uma terceira etapa de revisão, em que ajustes finais são feitos, sobretudo em se tratando de obras extensas e/ou de múltipla autoria. 

A etapa de preparação dos originais é aquela em que há uma interferência maior no texto. O revisor precisa estar atento a possíveis saltos de tradução (trechos presentes no texto de partida mas ausentes na tradução), a padrões de coesão e coerência, pontuação e adaptação gráfica aos padrões brasileiros. Deve também atentar para a numeração de eventuais notas de rodapé e normatização conforme os critérios da editora (ou do contratante). A etapa de leitura após a preparação dos originais tem o objetivo principal de sanar problemas ortográficos, conferir sumários, cabeçalhos, página de rosto, ficha catalográfica e qualquer fuga do padrão gráfico, como linhas-viúvas, hifenização, tamanho do tipo, etc.

O REVISOR E O TEXTO

A atividade de revisão de textos surge com as gramáticas, “fortemente vinculadas à prescrição de bem falar” (BRITTO, ''A sombra do caos'', 1997) e prescritivas em sua origem. 

Nascendo a partir da norma, e só existindo por causa dela, a revisão de textos restringiu-se por muito tempo à correção ortográfica e gramatical e foi incorporada como parte intrínseca do processo editorial. É nesse espaço social que o profissional que realiza o trabalho de revisão encontra boa parte do mercado de trabalho. A produção de textos acadêmicos e científicos também compõe uma porcentagem expressiva do trabalho disponível ao revisor de textos, mas, ao contrário do que ocorre na relação estabelecida com o mercado editorial formal, a revisão de textos de áreas especializadas tende a eximir-se de qualquer responsabilidade de ordem trabalhista, o que reflete a falta de respaldo social da atividade.

Muito se tem debatido sobre teorias literárias, teorias da tradução e teorias lingüísticas com ênfase na autoria e no texto final, tomando o texto já pronto (ou seja, publicado) como ponto de partida ou, no caso dos estudos de tradução, dois textos cujas características são comparadas à luz de teorias da tradução. O que poucas vezes se leva em conta é a existência de políticas editorias que interferem no produto final. Um exemplo disso é a mudança de títulos, como a publicação em português de Blind Man with a Pistol, de Chester Himes, pela editora L&PM (2007), sob o título O Harlem é Escuro (tradução de Celina Falk Cavalcante). Tive a oportunidade de realizar a revisão da tradução, e o título sugerido pela tradutora era outro. Por decisão da editora o título foi alterado.

Semterconhecimento desse fato, não é improvável que um pesquisador de literatura comparada venha a pesquisar a tradução de Blind Man with a Pistol e tecer teorias sobre a escolha do título, quando, na verdade, o título não foi escolha nem do tradutor, nem do revisor, mas da editora. Em outras palavras, o perigo de isolar a obra e considerá-la fruto somente do trabalho do autor e do eventual tradutor é desperdiçar esforços teóricos ao se desconsiderar os outros agentes envolvidos no processo de publicação.

Digressões à parte, o revisor não só é um leitor, ele é um leitor com experiência de leitura e representa todos os potenciais leitores do texto que revisa. De certa forma, o revisor traz o leitor para o processo de produção do texto, pois, estabelecida a comunidade interpretativa (conforme denominação de Fish, 1976), o revisor passa a representá-la e a sugerir alterações no texto que sejam mais adequadas aos leitores a quem o texto se dirige. 

Sob essa perspectiva, reduzir a atividade de revisão à simples correção gramatical é ignorar o papel do revisor como um especialista textual e um especialista em leitura. No que diz respeito ao texto, são aspectos lingüísticos que entram em jogo: padrões lexicais e terminológicos, padrões de coesão (específicos de gêneros textuais, por exemplo) e elementos sintáticos; no que diz respeito à leitura, são acessados aspectos extratextuais, de crítica literária, de teoria literária e de experiência de leitura (KOCH, ''Ler e compreender'', 2007). Estes são os pilares da boa revisão. Dominar regras gramaticais sem dúvida é um pré-requisito para a prática da revisão, mas não é a única nem a mais importante.

Para finalizar, é fundamental ressaltar a importância da formação profissional e da urgência de reconhecimento da profissão pelo Ministério do Trabalho. Para que haja reconhecimento social, é fundamental a intervenção e posicionamento dos cursos de Letras como formadores dos profissionais aptos a exercer a revisão de textos. Hoje, não há regulamentação que exija diploma em qualquer curso, o que equivale a dizer que qualquer um pode “virar” revisor.


Fonte: http://m.parc.terra.com.br/efamilynet/dev/generic/interna.php?id_cat=57&article_id=2060

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